Elias João - Creative Copywriter and Stategist

1. A PRESSÃO DIGITAL




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E tu, o que é que fazias neste cenário?
Estás num bar com amigos e amigas a beber imperiais. Ao fundo entra um grupo de pessoas e tu trocas olhares com uma delas. De lá vem um sorriso e tu coras. Logo a seguir entra outro grupo de pessoas, entre elas um influencer famoso que não te atrai nada.
Decides ir fazer conversa, mas com qual dos grupos?
Onde está uma pessoa que te atrai genuinamente, mas que pode não ser activa nas redes sociais? Ou onde está o influencer famoso?
Antes de decidires, deixa-me apresentar-te o conceito de Dataísmo. O Dataísmo é a “religião dos dados, (…) que nos diz que as experiências que não são partilhadas (online) não têm qualquer valor e que não temos de procurar – na verdade não conseguimos – o sentido dentro de nós (…)”.
Não sou eu que o digo, é Yuval Noah Harari, escritor e historiador israelita, no seu brilhante livro “Homo Deus: Uma breve história do amanhã”. Yuval explica que a ideia humanista de que “(…) as experiências acontecem dentro de nós e que é aí que temos de procurar a razão de tudo aquilo que acontece, dando dessa forma sentido ao universo (…) e à vida, está completamente ultrapassada”.
Para o dataísta, as experiências só têm valor se forem fotografadas ou gravadas e partilhadas no “sistema”. Yuval acrescenta que este fenómeno não acontece porque está na moda, mas sim porque “(…) É uma questão de sobrevivência. Temos de provar a nós próprios e ao sistema que não perdemos o nosso valor. E esse valor não reside nas experiências, mas na capacidade de
transformar tais experiências em dados que circulam livremente. (…)”

Pois é.
Se quisesses ser um/a verdadeiro/a dataísta ias fazer conversa à mesa do influencer porque tinhas mais hipóteses de provar o teu valor ao “sistema” com uma story, um tag e talvez um post em que falavas sobre a divertida, mas vazia, noite que tiveste.
Não importa se tivesses ido à mesa onde estava a pessoa que te sorriu, ficassem horas a falar sobre as vossas infâncias, ela escrevesse o seu número num guardanapo, o colocasse no teu bolso com um sorriso e dissesse “Quero ver-te de novo”.
Mas, espera, não decidas já. Vamos pensar noutro cenário.
Algarve, segunda-feira de manhã, sol, o teu fato de banho favorito e uma garrafa de água fresca com limão na geleira. A maré está a vazar e está quase na altura de ires fazer uma das coisas que mais gostas: passear nas rochas e mergulhar. Mas também sabes que estás atraente, com um bronze brutal, e que se fores à água o teu cabelo vai ficar salgado e despenteado. Ora, toda a gente sabe que os teus seguidores adoram o teu cabelo.
Ainda por cima já não fazes um post há três dias e os teus seguidores começam a achar que a tua vida é igual à de toda gente.
Vais passear nas rochas e mergulhar, ou vais tirar fotografias com o cabelo perfeito e publicar no Instagram?

Pois é.
Se quisesses ser um/a verdadeiro/a dataísta ficavas na areia com o cabelo impecável porque tinhas mais hipóteses de provar o teu valor ao “sistema” com um post sobre o teu dia “mágico” na praia.
Não importa se tivesses ido às rochas, respirasses fundo a olhar para o mar e recordasses o teu pai, que ia sempre passear contigo. Não importa se tivesses mergulhado e estivesses horas a boiar enquanto olhavas para o céu. Não importa se aquele momento te desse a força que precisavas para ultrapassar um desafio.
Alguém gravou? Não? Então esquece, não importa. As experiências humanas não têm valor se não forem partilhadas online.
Um olhar, um dar de mãos, um riso que enche a sala, uma dança em cima da mesa, um abraço apertado. Tudo isso deixou de ter valor por si só.

Será que a necessidade constante de partilhar experiências no “sistema” já está a influenciar a nossa maneira de ser?
Será que é mais importante alimentar o sistema do que alimentar a alma?
Vamos ser obrigados a escolher entre seguir o coração e seguir o influencer?
O Yuval acha que sim.
Eu também.



2. CARA OU COROA?





A moeda já voa. Mas deixem-me ser real antes que caia. A sério, permitam-me ser franco.
Enquanto a moeda sobe, o meu coração baht e eu marco cada batimento.
Vai-se elevando, rodopiando sem nexo, seguida pelo meu olhar. Sigo cada movimento.
As emoções ao rublo, o receio da ação e o peso do destino, flutuando e desvalorizando tudo aquilo em que acredito.
Quem és tu? Que jogas no ar esta moeda em busca de respostas?
Tu, incapaz de encarar que nunca foste coroado por feito algum, tens a cobardia de deixar à sorte o teu destino?
A moeda pára, no ar. Espera, não descas já. Quem me dera que aí pudesses ficar para sempre.
Quem me dera que nada te fizesse cair.

Espera.

Cara ou coroa? Não há como esperar por uma ou por outra… Quem tem cara é sempre digno de usar coroa.
Já sei. É isso. Só há um caminho. O único que todos devemos seguir.
A moeda começa a cair.
Desce, podes ir. Desta vez não te sigo com os meus olhos. Não. Desta vez vais sozinha.
Eu também vou, rumo ao horizonte livre, o único caminho possível.
O meu.
Quando caíste, eu já não estava lá.
A verdade é que nunca precisei de ti. O meu destino sou eu que o traço.
O resto para mim são trocos.




3. ESCRITA ARQUITECTÓNICA




Antes de me ir embora da Bar Ogilvy, decidi escrever umas palavras.
Para surpreender, desenvolvI um conceito: a escrita arquitectónica.
Com um tempo de execução de 5 horas, consegui escrever a frase
“criatividade é diversidade” através da junção de uma letra por linha.
De linha para linha, a posição das letras vai avançando, num total de 24 espaços.
O resultado final: uma frase com 24 letras, ao longo de 24 espaços e 24 linhas de texto.
Tudo, com 24 anos.

                                                                                        



4. MULHER FORTE




Olha bem para os bracinhos dela. Tão finos.
Repara no tamanho das suas mãos e no seu ar inofensivo.
Parece tão frágil, não parece?
Agora, experimenta isto: olha-a nos olhos. Tenta ir o mais longe possível.
Consegues?
Se estiveres atento, vais ver uma mulher forte, cheia de fibra e músculos viscerais. Com coração e com estômago.
E é aqui que me perguntas: como é que sabes se é uma mulher forte?
Primeiro, deixa-me dizer-te isto.
Hoje em dia, é muito difícil ver o interior de uma mulher.
Aliás, hoje em dia tornou-se difícil conhecer uma mulher. Porque é preciso tempo para o fazer, e nós andamos todos sem tempo.
Nós, homens, com braços grandes, costas largas e vozes grossas, para além da crise moderna da falta de tempo, temos um problema ainda mais grave.
Como sempre fomos fortes no exterior, deixámos o interior para depois.
Então, acostumámo-nos a deixar tudo para depois. Gostamos muito de falar sobre as coisas, mas não gostamos nada de as fazer.
Foi Margaret Thatcher que disse, “Se querem que algo seja dito, peçam a um homem. Mas se querem que algo seja feito, peçam a uma mulher.”. Não podia ser mais verdade.
Nós, homens, somos crianças com esteroides que ainda gostam de jogar à apanhada. Desligamos quando devíamos estar ligados, e só ligamos quando as mulheres se desligam de nós.
Por isso, em segundo lugar, digo-te isto: é preciso estares atento se queres encontrar uma mulher forte.
Se é difícil? É. Mas não é impossível.
Uma mulher forte não quer ser o centro das atenções, porque está ocupada a dar atenção. Não usa filtros, nem naquilo que diz, nem nas fotografias que publica online. É aquilo que é, e não está preocupada em ser aquilo que parece bem.
A mulher forte sente com o corpo inteiro, e é assim que vê as coisas. Como um todo. Também é assim que vê o seu homem.
Quando uma mulher forte pergunta porque é que deixaste o champô acabadinho de comprar no ginásio, não quer saber se vais comprar outro. Quer perceber-te e tornar-te num homem mais atento.
Quando uma mulher forte exige que desvies o olhar da televisão, não é porque está carente e precisa de atenção. É porque quer ser ouvida, considerada e respeitada.
Porque a mulher forte pensa a longo prazo. Investe, insiste, molda, empurra.
Todos sabemos que há coisas “de homem” e coisas “de mulher”, mas nunca percebi porque é que se diz “é de homem” e nunca se diz “é de mulher”. Para mim, ser resiliente é de mulher. Para mim, não desistir é de mulher.
A força física é definitivamente do homem. Mas a força interior pertence à mulher.
Oscar Wilde disse que “As mulheres não foram feitas para serem compreendidas, mas sim para serem amadas.”.
Eu discordo.
Quanto mais compreendo a minha, mais a amo.



5. SER CRIANÇA





Ser criança é aprender sobre o ciclo da vida. É querer ver o Scar cair nas chamas e calar o riso das hienas.
É saber que Simba voltou, vestindo as cicatrizes do passado, para lutar e fazer justiça.
Ser criança é querer ver o Dumbo levantar voo. É saber que é fácil criticar. É aprender a não julgar pela aparência. É aprender a aceitar.
Ser criança é saber que Hércules foi de 0 a héroi, mas não quis ser deus.
É querer procurar quem somos noutros lugares, mas ter coragem de voltar à origem se o nosso coração assim desejar.
Ser criança é querer combater ao lado da Mulan, a mulher com espírito de dragão que orientou um império sozinha.
Ser criança é aprender, com o Woody, que há coisas mais importantes do que o nosso ego.
É saber que tudo o que está escrito pode ser alterado pela força da amizade, mesmo que esteja cravado nas nossas bases.
Ser criança é querer ser o Tarzan. É sonhar com um mundo onde a natureza é intocável.
Onde espingardas não matam. Onde homem e gorila são do mesmo clã.
Mais do que querer, ser criança é acreditar que o bom ganha sempre.
Que o justo, o verdadeiro e o altruísta, vão vencer o mau, o mentiroso e o egoísta.
Se ser criança é isto… Ser adulto o que é?
É deixar à sorte o final?
É ver o mundo virar um jogo de ganância, onde vilões rolam dados e ditam o destino da comunidade?
Comprar, comprar, comprar, de volta à partida. Numa correria desmedida pelo espólio que está no meio.
Querem mais. Mais e mais para o portfólio.
E eu, sentado, a ver o meu mundo Disney virar Monopólio.




6. OLHOS NOS OLHOS 





Os meus olhos são como todos os outros: janelas para o mundo.
Sempre vi cores, mas nunca as julguei... Não me limito a olhar para o que se cruza no meu caminho. Faço por ver além e forço para conhecer o novo.
E há coisas que estes olhos nunca deixarão de ver.
As pessoas que me fazem feliz, que me dão sorrisos e abraçam quem sou, exatamente por ser quem sou.
À medida que os anos passam por mim, vou apertando mãos, beijando bochechas, vou-me interessando e desinteressando.
Mas há coisas que estes olhos nunca deixarão de ver.
As pessoas que me inspiram e me fazem querer dar, muito mais do que receber.
Mas nós... Todos nós.
Cada vez mais concentrados em... Nós.
À procura de aceitação, de aprovação. Esquecemo-nos de que são as pessoas que olham nos nossos olhos sem julgar, sem rotular, que merecem ser motivo de inspiração.
A nossa maior virtude, a nossa maior força, nasce da capacidade para aceitar quem somos. Com a consciência no lugar certo, a única aprovação de que precisamos é a nossa.
E aqueles que vivem em constante sofrimento por ambicionarem a perfeição... A esses lhes digo - Olhem à vossa volta -. Sejam mais, tenham mais coragem para abraçar a diferença de quem vos rodeia.
No final, o que conta é fazer pelos nossos.
O que conta é sentires na tua mão um aperto tão forte como aquele que dás. Saberes que aos olhos dos teus, és tão verdadeiro quanto eles são para ti.
Há coisas que estes olhos nunca deixarão de ver.
Descobre quem és e quem nunca serás. Descobre quem são os teus.
Olha-os nos olhos.





7. FILME MUDO



Hoje fui ao cinema.
Ao meu lado sentava-se um par, ele cal, ela com emissividade igual a um.
A conversa soava superficial, variando entre o jantar no vitaminas e a lesão no tornozelo esquerdo do homem, federado e titular na "sunday league" do Barreiro.
Notei alguns toques e jeitos virgens, talvez resultantes de um segundo ou terceiro encontro. Via-se, claramente, que o man cuidava de um investimento em fase prematura, desta vez uma exploração de fundos africanos.
Tudo ia de vento em popa. As luzes perderam potência, gradualmente, e os dois adoptaram uma proximidade mais confortável.
No ecrã foram surgindo ténues vislumbres da Natureza Selvagem. Tigres, elefantes e girafas. Um anuncio do Jardim Zoológico de Lisboa que, entretanto, tinha atraído a atenção da paleta de duas cores.
Nisto aparecem os macacos, no seu clássico aparato, a comer bananas e a brincar nos ramos das árvores.
E diz o malandro, sem qualquer tipo de hesitação: - "Olha! São os teus primos!"...
Sem brincadeiras. A cara que o bronco fez quando viu as suas acções virarem amendoins, é inexplicável.
A dama respondeu com um grunho, cruzou os braços e não disse uma palavra o resto do filme.
Hoje vais para casa só com a banana, burro.



8. WILLSON (ShortStory)




A história do Willson é fictícia, mas o Willson é uma pessoa bem real.
Num dia normal, à hora do almoço, estava sentado com os meus colegas de trabalho na tasca onde costumamos ir. De súbito, ao fundo, vejo entrar um homem de raça negra com uma mala de viagem na mão e vestindo uma camisola às riscas azuis e amarelas. Com o andar pesado, humilde, cruzou o olhar comigo e veio até perto da nossa mesa, sem tirar os seus olhos dos meus.
- Senhor, desculpe estar a incomodar, mas eu não como desde ontem.
Será que me pode dispensar uma refeição? - disse.
Olhei para todas as pessoas que estavam na mesa, uma a uma, e sem que ninguém dissesse uma palavra, percebi que todos estavam dispostos a pagar uma refeição a Willson.
- Claro -  disse - Senta-te e come connosco. -
Willson pousou a sua mala e sentou-se à minha frente.
À medida que se ia fazendo conhecer, percebemos que havia uma tristeza muito forte no seu coração.
Já tinha tido uma vida normal, mas as circunstâncias fizeram com que fosse viver para a rua.
- Mas porque é que não voltas a tentar? Porque é que não tentas recuperar a tua vida? - perguntei. -
- É difícil, é muito difícil. Prefiro viver assim, sem ter nada. - respondeu Willson enquanto levava o pão à boca. -
A história do Willson fez-me pensar. Como é que uma pessoa perde a sua vida?  Muitas vezes olhamos para os mendigos que vivem na rua e não pensamos que essas pessoas tiveram uma história. Não nos apercebemos de  que essas pessoas não escolheram viver assim.

Foi por isso que decidi criar a minha versão da história do Willson. Para mostrar que, por mais difícil que seja a nossa situação, por mais maus cenários que possam surgir na nossa cabeça, nos nossos sonhos, nós temos o poder para decidir.

WILLSON

I


O comboio acabara de partir e Willson já dormia. A turbulência fazia tremer a cabine e a brisa fria que soprava da janela superior assobiava com força. Um fato novo, de fino corte, vestia o seu corpo adormecido e um pequeno caderno azul encolhia-se, sob o aperto firme da sua mão esquerda. A poeira das estradas de terra, que percorrera no caminho para a estação, envolvia os seus cabelos grossos, mascarando-os de um castanho leve que escondia o seu negro natural, tão escuro como a sua pele. No chão da cabine estava um jornal esquecido, datado do dia anterior, onde se lia no cabeçalho: “Grande empresário da construção destituído por fraude”. Um passageiro que procurava o seu lugar parou, empurrando a mão sob o vidro gelado da cabine, e observou Willson, refastelado na solidão dos bancos de tecido gasto, com a indiferença de quem olha um bêbedo. Outros fizeram o mesmo, sobrepondo suores e dedadas, até o interior da cabine de Willson se tornar uma visão comum a toda a carruagem. Quando o comboio chegou à última estação, uma voz estridente anunciou o fim da viagem e Willson abriu os olhos. Podia ver o seu reflexo no vidro. Olhou-se por um momento e pensou no seu nome, como fazia sempre antes de tomar decisões importantes. Willson, o filho da vontade. Fora sempre essa a sua força e, agora, no fim da linha, fitando-se naquele vidro, realizou que a sua vontade seria mais uma vez o alento para seguir em frente. Lá fora havia vida. Casais jovens em passo romântico, um velho apoiado numa bengala e um grupo de estrangeiros em jeito de surpresa. O sol afundava-se a poente e uma luz alaranjada encontrava o seu caminho por entre os envidraçados da Gare do Oriente. Lembrou-se do seu alpendre, em Montemor, onde se sentava sozinho a ver o pôr-do-sol. Fechou os olhos novamente. Em último caso alguém o viria chamar para que saísse do comboio. Pôde escutar o canto dos melros que namoravam em círculos. Pôde sentir na cara o vento quente do Alentejo e o cheiro das hortênsias que plantara no seu jardim. Pôde sentir o fumo da cigarrilha importada, o sabor intenso que guardava na boca, até o soltar e o ver fugir, dissolver-se no ar, para depois se desvanecer. Voltou a abrir lentamente os olhos, pousou o seu caderno azul no banco, segurou o anelar esquerdo com a mão direita, baixou a cabeça e examinou a sua aliança. Sempre esteve apertada. Tirou-a do dedo com alguns puxões e colocou-a no parapeito da janela. Pôs o caderno azul no bolso esquerdo das calças, levantou-se e saiu do comboio. Seguiu no seu passo lento, por entre transeuntes frenéticos, até encontrar um quiosque. Pediu um café. Pagou com a única moeda que levava no bolso.
- Um euro - pensou - o único que me resta. -
A sua mão não tremia, os seus olhos eram de um negro determinante. Entregou a moeda à menina morena. Bebeu o café de um trago e seguiu caminho. Willson, o filho da vontade, o fato de corte fino que trazia vestido, o seu pequeno caderno azul e as suas memórias, tudo o que possuía naquele momento. Caminhou sem parar. A noite já era cerrada e o vento frio trespassava o seu fato de fino corte, cortando-lhe a pele. Os pés doíam, as pernas falhavam, e Willson decidiu procurar um sítio para descansar. O seu estômago contorcia-se, pois nada tinha comido desde que saíra de casa, naquela manhã. Encontrou uma grande árvore, juntou algumas folhas secas e acomodou-se no pouco conforto que pôde descobrir. Fechou os olhos.
- Não vou sonhar - disse para si mesmo. - Comprometo-me a não sonhar. -
Mas, por mais que tentasse desocupar o pensamento, não pôde deixar de recordar aquela imagem. Uma visão que não passava de uma lembrança, cada vez mais distante, cada vez menos sua. Viu as suas filhas, abraçadas, donas de um sorriso radiante. Viu a sua mulher, bela, com os seus cabelos morenos caindo com elegância sobre os ombros e a sua pele suave como uma nuvem. O que ontem era seu, hoje era de outro. Quando acordou ainda era de madrugada. O tronco maciço que lhe servira de encosto era tão duro e rugoso que as suas costas latejavam de uma dor lancinante. Os seus sapatos de pele já não brilhavam. Baixou a cabeça. Era sempre com a sua filha Isabel, todas as manhãs. Na confusão da rotina madrugadora, era ela que vinha limpar-lhe os sapatos com a manga do pijama e, depois, subindo pelas suas pernas, lhe abraçava o pescoço com os seus pequenos braços, o beijava na face e dizia:
- É para estares sempre brilhante, Pai. -
As lágrimas desciam desalmadamente pela sua face até saltarem do seu queixo para o chão. Chorou como nunca antes. Soluçou alto, tão alto quanto pôde soluçar. Entrelaçou os dedos nos seus cabelos grossos cobertos de pó, apoiou a testa nas palmas das mãos e sentiu-se derreter. De repente, lembrou-se do seu nome. Willson, o filho da vontade. Ergueu a cabeça, limpou as lágrimas às mangas do fato de fino corte. Elevou-se lentamente, segurando as costas com a mão direita, deu alguns passos até se endireitar e parou. Estava no cimo de uma colina, rodeado de árvores verdejantes, e era senhor de uma vista bonita sobre a ponte 25 de Abril. Ao fundo, bem alto no céu azul de Lisboa, voava uma gaivota em círculos.
- Que sorte tens –disse, contemplando o céu. - Que sorte a tua vida ser um dia de cada vez… A posse do homem é a sua maior fraqueza. Para ti, não. Tu voas como se não houvesse amanhã e como se não tivesse havido ontem. Voas porque tens de voar. Porque nada é teu, nada te pertence. –
Inclinou a cabeça para baixo e voltou a olhar os seus sapatos de pele sem brilho. Dobrou-se, separou a tira de pele da fivela dos dois sapatos e sentou-se brutamente. Descalçou primeiro o direito, depois o esquerdo. Com a mão direita agarrou nos dois sapatos e atirou-os com toda a força colina abaixo. Antes de seguir caminho, Willson fitou a grande árvore e decorou os seus detalhes. Voltaria, à noite, para dormir naquela colina. Os seus pés nus enterravam-se na relva húmida do orvalho madrugador, as suas mãos tremiam enregeladas e o seu respirar era lento e fumegante. A fome que sentia era já demasiado forte para ignorar. Andou até encontrar uma estrada de terra, que depois seguiu, convicto de que o levaria a um lugar mais citadino. Marchou sem parar, cruzou o Jardim da Estrela até pisar o passeio da Avenida Álvares Cabral, e desceu até ao largo do Rato. Os seus passos tornaram-se mais firmes e o seu andar mais hirto. Lembrou-se da gaivota que voava sobre o Tejo. Pouco faltava conquistar para se tornar igual a ela. Ao fundo, sentado com a cabeça entre as pernas, mendigava um homem de meia idade com as vestes rotas e um chapéu de palha. Willson sentou-se a poucos metros de distância, mas, em vez de pousar a cabeça entre as pernas, dobrou o pescoço para trás até sentir a dureza do cimento na nuca. Não conhecia Lisboa. Para ele, que vivera os últimos vinte anos na calmaria do sul do país, toda aquela azáfama de carros e pessoas não passava de uma sentença de morte. Uma veia entupida que, agora, lhe fazia bater mais forte o coração de ansiedade. Inspirou profundamente. Expirou e pousou a cabeça entre as pernas, exatamente como o mendigo fazia, a poucos metros de si. Viu-se no seu casamento, com um fraque cor de areia e o laço preto que herdara do seu Pai. A festa estava viva. A alegria tinha tomado conta da sua alma e Eva, a sua mulher, era dona do seu amor. Tinha cedido ao seu pedido, como sempre acontecia, e todas as bebidas da festa eram cor-de-rosa, a preferida de Eva. Pôde ver o seu irmão, a única pessoa do mundo a quem sempre confiou todos os seus segredos, levantar-se para bater três vezes com uma colher no copo cheio de champanhe quase carmim, antes de discursar como padrinho. De repente, ouviu tão perto os três tilintares no cristal que podia jurar ter voltado atrás no tempo. O seu coração batia agora ao ritmo da azáfama da cidade, e num gesto brusco levantou a cabeça. Quando olhou para o chão, viu três moedas junto aos seus pés. Irónico, pensou. O som, que dá início ao meu destino, é o mesmo que deu início ao discurso da pessoa que destruiu a minha vida. Ao final da tarde, Willson já tinha juntado o suficiente para cumprir a sua segunda demanda. Esta noite não ia sonhar.

II

Despertou com as pálpebras pesadas, a boca árida e o corpo dormente. Todo o whisky que bebera se insurgia agora contra si, e uma dor fulminante assaltava a sua cabeça. Mas, com suas memórias afogadas no malte escocês, Willson deixou-se ficar deitado de olhos fechados, sob o sol quente do meio-dia. A fome parecia não o afetar e um sorriso indulgente aflorou os seus lábios secos. Não veria mais os seus sapatos sem brilho, não sentiria mais o apertar da sua aliança. E, tal como a gaivota que voava em círculos, não pensaria no passado, nem pensaria no futuro, nunca mais. Levou a mão ao bolso esquerdo, apertou com força o seu pequeno caderno azul, e deixou o sol aquecer-lhe o rosto durante o resto da tarde. Quando o poderio do sol se extinguiu, Willson abriu os olhos.
- Chegou a altura - pensou. -
Deu um golo lépido na garrafa de whisky que deixara encostada à grande árvore e levantou-se. Ao fundo estava a ponte, alta e imponente. Os seus olhos percorreram o céu, na esperança de que se cruzassem com o voo da gaivota, mas não a pôde achar.
- Onde estás, pássaro? – gritou. – Não me queres ver voar? -.
Levou o whisky à boca e inclinou o pescoço para trás. Bebeu tudo, até à última gota. O seu corpo balançava ao sabor do vento que subia a colina e, lentamente, deixou a garrafa escorregar-lhe pelos dedos até cair na relva. Levantou a cabeça, contemplou novamente a ponte e lançou-se num passo acelerado e cambaleante. Ignorou as buzinas incessantes que os condutores lhe lançavam. Manteve o ritmo dos seus passos tão consistente como a sua determinação. Quando chegou a meio do tabuleiro da ponte, Willson deteve-se. O sol começava a afundar-se. Despiu o casaco do fato de fino corte, rasgou bruscamente a camisa branca e lançou tudo ao Tejo. Desapertou o cinto, tirou as calças e as cuecas, mas, antes de lhes dar o mesmo destino, colocou a mão esquerda no bolso das calças e retirou o seu pequeno caderno azul. Ao despojar-se das suas roupas, Willson cumpria a sua terceira demanda. Completamente nu, abriu o caderno e soltou um saco transparente, que estava preso no vinco que divide as páginas, contendo um pó esbranquiçado no interior. Abriu-o e inseriu o indicador para trazer consigo um pouco do pó agarrado. Inalou três vezes, deixou cair tudo no chão rugoso da ponte, cruzou a perna direita por cima da vedação de ferro e encostou-se à grade gelada, de corpo virado para o Atlântico e a um passo do abismo. De repente, sentiu a alma separar-se do seu corpo e, como se pairasse no ar, pôde ver-se a si mesmo, tão alto na ponte e tão perto da morte. Os efeitos da Ketamina já se manifestavam e Willson viu cumprida a sua quarta e última demanda. Agora, o seu objetivo estava completo. O seu estômago estava vazio, as suas memórias incendiadas pelo fogo do whisky, o seu corpo nu e a sua mente fora do seu corpo. - Agora sim! – exclamou sorridente.
- Agora nada tenho, e nada posso perder! Agora sou como tu, minha amiga gaivota. E nem te dignaste a assistir ao meu momento de glória…–.
Os carros passavam nas suas costas e as rajadas de vento que criavam empurravam-no com força. Os seus dedos deslizavam na barreira e ameaçavam soltar-se a qualquer momento. O sol estava a meio do seu mergulho. - Este é o maior trunfo que um homem pode ter, meu amigo voador! Toda a minha vida lutei para ter tudo e agora vou lutar para não ter nada. E sabes o que é que me resta? Sabes quem sou eu? Willson! O filho da vontade. E a minha vontade é não ter nada, para que possa morrer feliz.
- O sol já se afundava no horizonte, quando Willson se afundou morto no Tejo.

III

No palpitar da eminência sumptuosa dos carris, quando o comboio chegou à última estação, uma voz estridente anunciou o fim da viagem e Willson abriu os olhos. Podia ver o seu reflexo no vidro. Pegou no jornal que deixara cair no chão e viu-se na primeira página, ao lado do seu irmão. Por baixo do cabeçalho, lia-se: “Willson Amado foi, esta manhã, acusado de quatro crimes fiscais e afastado da liderança da companhia. O irmão e detentor de metade dos ativos, Illson Amado, toma posse com efeito imediato. As autoridades ainda não conseguiram localizar Willson, que (…)”.
- Traidor… - disse, cerrando os dentes. -
Olhou para a sua aliança. Sempre esteve apertada, mas isso nunca o incomodou. O aperto que sentia no anelar servia para se lembrar da sua família, pois era igual ao que sentia no coração, sempre que estava longe. Abriu o seu pequeno caderno azul. Na primeira página estavam quatro nomes escritos a lápis. As quatro pessoas que engendraram a sua destruição. No vinco que divide as páginas estava um saco transparente contendo um pó esbranquiçado no interior. Pensou no seu nome, como fazia sempre antes de tomar decisões importantes. E, enquanto o seu olhar se dividia entre dois destinos, a ação ou o esquecimento, Willson voltou a fitar-se no espelho e disse:
- Willson, filho da vontade, queres morrer feliz ou viver feliz?

– FIM




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